terça-feira, 23 de abril de 2013

A Casa Amarela

Uma casa amarela para uma menina de nome Quimera.
Eis como a nossa história começa.
Por mais que tentassem, Quimera não era criança de viver confinada.  
Tinha ideias próprias. Impróprias, talvez, para um mundo que parecia gritar ser proibido sonhar.
Quimera nunca se deixava alcançar. Um passo de aproximação em sua direção, e ela, tac tac, dois, a fugir.
Não havia quem negasse, no entanto, que suas vontades eram genuínas e mal não faziam a ninguém.
Quem a conhecia a simplificava, dizendo: "ooohh, menina de personalidade".
Quimera, dentre tantos desejos, sonhava conhecer o mundo.
Tinha lido em alguns livros que em lugares não muito distantes pessoas viviam de forma bem diferente a da sua vida. Tinham outros costumes, outros valores. 
Quimera ainda não sabia quase nada sobre costumes e valores, mas de curiosidade pelo desconhecido entendia bem.
Quando pela casa a contar que as crianças no Japão faziam origamis, teatros de marionetes, tomavam sorvetes de chá e comiam peixes crus, os adultos faziam que não ouviam seu  entusiasmo. 
Mesmo assim, Quimera não parava de sonhar com a existência de um mundo maior do que o de sua casa e família.
Quimera queria ser livre como os pássaros, mas sabia que uma criança é sempre alguém que necessita de pais e família por perto, por mais que seu espírito aventureiro de ganhar o mundo falasse alto.
Com papel, lápis e tesoura em mãos, foi construir uma casa amarela para nela viver o que  anos mais tarde reviveria. Colou as paredes, chão e teto. Abriu uma porta para nela entrar e dela sair. E, por fim, rasgou uma janela, posicionada frente ao horizonte, para fazer das estrelas suas eternas cúmplices. 
Graças à casa amarela de Quimera, o deserto do Saara, a vaca sagrada da Índia, o cumprimento pelo nariz dos esquimós, as piramides do Egito, as vestes indígenas, as danças africanas, e tantas outras histórias surgiram. 
Ao invés de catada pela vida, Quimera tornou-se uma catadora de vidas e fez da sua morada uma casa cheia.

   

  

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Dias de Luas Cheias

As estrelas têm olhos voltados para frente, por isso não sabem que vivem na companhia de muitas delas. Acreditam serem seres solitários. 
Em dias de lua cheia, há um lugar onde as estrelas se vêem todas refletidas na superfície de um grandioso lago. 
Nessa hora percebem que são muitas e, mesmo sem entender o porquê, brilham mais intenso do que em todas as outras noites. A luz faz noite virar dia, ilumina mais do que a soma de raios de cada uma doada àquele extraordinário espetáculo.
O brilho intenso dessas estrelas que se encontraram no olho do espelho do lago e que agora se sabem irmãs, dá braços ao das duas luas, a que vaga no céu e a que boia n'água. Cantam todos o silêncio do mundo, que não lhes é indiferente. 
Em outros lugares, estrelas-do-mar acordam e vão se juntar às estrelas-do-espelho, às estrelas-do-céu e às estrelas-apagadas. Fazem lembrar que onde quer que você viva ou para onde quer que você olhe, não está sozinho nunca.
Quando findas essas noites enluaradas, se as estrelas já não guardam a certeza de que são muitas, ao menos, lembram-se com desconfiança de que já foram e é por isso que, dia-após-dia, olham com olhos esperançosos para a única direção que podem, o lago, e alí esperam reviver os milagres dos dias de luas cheias.  

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Era um tempo...


Era um tempo em que brincadeira era coisa cara. 
Muito antes desse tempo, caro sempre havia sido sinônimo de prezado, estimado, amado. 
Até o dia em que uma tal de tecnologia acabou por inventar os eletrônicos, aparelhos que falavam, moviam-se, cantavam, ilustravam, transformavam-se, deletavam e conectavam-se com o mundo, com um simples apertar de botão, teclado ou dedo. Tinham vida própria e, talvez por isso, custavam cada vez mais muito dinheiro.
Os amigos de Mariana, um a um, apaixonaram-se por esses novos brinquedos. Mariana gostava deles também, mas, no fundo, sentia-se roubada de seus amigos. 
Era um tempo em que brincar com eles era coisa rara.  
Sempre que a saudade de brincar as velhas brincadeiras lhe batia à porta do coração, saía à procura de alguém. 
Naquele dia, foi à casa de Pedro. Lá chegando, a mãe dele apontou-lhe as escadas, a indicar que estaria no quarto. E assim foi encontrado, segurando um minúsculo computador, com os olhos colados na tela, mais corcunda que o de Notre Dame.
"Oi, Pedro, vamos brincar?"
Sem desgrudar os olhos da tela, respondeu: "Já estou brincando" "Por que não traz seu Ipad e vem jogar comigo?" 
Mariana não queria saber dessa diversão. Ela desejava brincar com Pedro, e não brincar com uma máquina ao lado dele. 
Partiu, sem nada dizer e foi falar em outra freguesia.
Mas a cena não foi diferente na casa dos demais amigos. Todos estavam muito ocupados com seus gadgets.
Triste, voltou para sua casa e contou a sua mãe o que havia se passado.
A mãe lembrou-se de alguns guardados num baú antigo e convidou a filha a abri-lo.
De lá foram saindo tantos objetos diferentes, um mais inventivo que o outro: ioiô, telefone sem fio, bambolês, carrinho de rolemã, elástico, pipa, papéis de carta, corda, bolinha de gude, giz de cera, pé de lata, pião, cata vento, bilboquê.
"Bilbo o quê?", perguntou Mariana.
"Bilboquê", respondeu a mãe, "essa esfera com um orifício, presa por um barbante a esse suporte. O objetivo do jogo é acertar a bola dentro do suporte, assim", e fez um movimento com a mão. 
Mariana maravilhava-se com tantos inventos e não via a hora de mostrá-los aos amigos.
Saiu com um giz em mãos, desenhou na calçada quadrados de um a dez, que ligavam o inferno ao céu, e pôs-se a jogar a pedra e a pular de uma perna só, cantando a canção de Nazaré Pereira, que sua mãe lhe ensinara:

"Jogo d'Amarelinha 
Na linha não vai pisar 
Pé dentro, pé fora 
Esse pé não vai errar 
Jogo d'Amarelinha 
É pra menina pular 
Cuidado pra não errar que a vida 
É curta menina e nada se vai levar
Jogo d'Amarelinha 
E a vida quer durar 
Tem um diamante no embigo 
Cuidado pode quebrar 
Menina pequenininha 
Tonta de tanto chorar 
Teu choro é uma lagoa 
E é la que eu vou me banhar"

A meninada toda parou para olhar e, tomada por um entusiasmo nunca visto, foi brincar de amarelinha.
Mariana já não brincava sozinha, nem seus amigos. 
Foi-se o tempo em que brincar era coisa cara e rara.