Era um tempo em que brincadeira era coisa cara.
Muito antes desse tempo, caro sempre havia sido sinônimo de prezado, estimado, amado.
Até o dia em que uma tal de tecnologia acabou por inventar os eletrônicos, aparelhos que falavam, moviam-se, cantavam, ilustravam, transformavam-se, deletavam e conectavam-se com o mundo, com um simples apertar de botão, teclado ou dedo. Tinham vida própria e, talvez por isso, custavam cada vez mais muito dinheiro.
Os amigos de Mariana, um a um, apaixonaram-se por esses novos brinquedos. Mariana gostava deles também, mas, no fundo, sentia-se roubada de seus amigos.
Era um tempo em que brincar com eles era coisa rara.
Sempre que a saudade de brincar as velhas brincadeiras lhe batia à porta do coração, saía à procura de alguém.
Naquele dia, foi à casa de Pedro. Lá chegando, a mãe dele apontou-lhe as escadas, a indicar que estaria no quarto. E assim foi encontrado, segurando um minúsculo computador, com os olhos colados na tela, mais corcunda que o de Notre Dame.
"Oi, Pedro, vamos brincar?"
Sem desgrudar os olhos da tela, respondeu: "Já estou brincando" "Por que não traz seu Ipad e vem jogar comigo?"
Mariana não queria saber dessa diversão. Ela desejava brincar com Pedro, e não brincar com uma máquina ao lado dele.
Partiu, sem nada dizer e foi falar em outra freguesia.
Mas a cena não foi diferente na casa dos demais amigos. Todos estavam muito ocupados com seus gadgets.
Triste, voltou para sua casa e contou a sua mãe o que havia se passado.
A mãe lembrou-se de alguns guardados num baú antigo e convidou a filha a abri-lo.
De lá foram saindo tantos objetos diferentes, um mais inventivo que o outro: ioiô, telefone sem fio, bambolês, carrinho de rolemã, elástico, pipa, papéis de carta, corda, bolinha de gude, giz de cera, pé de lata, pião, cata vento, bilboquê.
"Bilbo o quê?", perguntou Mariana.
"Bilboquê", respondeu a mãe, "essa esfera com um orifício, presa por um barbante a esse suporte. O objetivo do jogo é acertar a bola dentro do suporte, assim", e fez um movimento com a mão.
Mariana maravilhava-se com tantos inventos e não via a hora de mostrá-los aos amigos.
Saiu com um giz em mãos, desenhou na calçada quadrados de um a dez, que ligavam o inferno ao céu, e pôs-se a jogar a pedra e a pular de uma perna só, cantando a canção de Nazaré Pereira, que sua mãe lhe ensinara:
"Jogo d'Amarelinha
Na linha não vai pisar
Pé dentro, pé fora
Esse pé não vai errar
Jogo d'Amarelinha
É pra menina pular
Cuidado pra não errar que a vida
É curta menina e nada se vai levar
Jogo d'Amarelinha
E a vida quer durar
Tem um diamante no embigo
Cuidado pode quebrar
Menina pequenininha
Tonta de tanto chorar
Teu choro é uma lagoa
E é la que eu vou me banhar"
A meninada toda parou para olhar e, tomada por um entusiasmo nunca visto, foi brincar de amarelinha.
Mariana já não brincava sozinha, nem seus amigos.
Foi-se o tempo em que brincar era coisa cara e rara.