sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A BRIGA

Todos conhecem a história da desavença entre o cravo e rosa, não é?
Que o cravo brigou com a rosa, debaixo de uma sacada. O cravo saiu ferido, e a rosa despedaçada.
Uma luta sem vencedor e vencido, ambos perdedores.
Porque quase sempre é impreciso perder-se para se achar.
É onde o ódio flutua, que seu avesso pode irromper.
A quem não amamos a indiferença, porque o ódio só é sentido em relação a alguém que, de alguma forma, nos toca, nos tem um significado, uma importância.
O cravo e a rosa amavam-se.
E é assim que termina a cantiga:
“O cravo ficou doente
E a rosa foi visitar
O cravo teve um desmaio
E a rosa pôs-se a chorar
A rosa fez serenata
O cravo foi espiar
E as flores fizeram festa
Porque eles vão se casar”.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

APRENSINAR

Já lhe disseram que cabelos brancos contam o tempo, mas não a sabedoria?
Que a criança, que tudo se atreve a saber, de repente, ensina?
Curiosidade não tem idade. 
Conhecer é ir para algum lugar sobre o qual só se intui.



sexta-feira, 19 de julho de 2013

MUNDO DOS SONHOS

Existe um lugar para onde se pode ir fechando os olhos. O mundo dos sonhos. Depende de nós criá-lo do jeito que quisermos. Somos mágicos nessas terras. Podemos fazer aparecer e desaparecer qualquer coisa, personagem ou paisagem. Igual ao céu, não há limite. Hoje, fechei os olhos e acordei de frente ao mar. Olhava as ondas, as espumas, a areia molhada e sentia o vento balançar-me o corpo todo. Abri os braços e comecei a voar. Cambalhotas no ar. Bom brincar no espaço do nada. Um nada mais real do que o tudo da realidade. E comecei a girar, feito bailarina, trapezista no céu. Dois pássaros se aproximaram e me fizeram cócegas. Lá embaixo a areia se transformou em gotas de cristais que rolaram para o mar, deixando-o cheio de estrelas. Quis descer, tocar a água, mas uma onda gigante roçou meus pés. Achei engraçado a água subir, ao invés de escorrer para baixo. Como pode? Peixinhos faziam a festa. Pulavam e faziam buracos na água, por onde se via uma vida de bichos e plantas de todas as cores e tamanhos. Senti frio. Uma nuvem me abraçou. No cair da tarde, o mar se retirou. Foi se afastando para o fundo do planeta e vi que tinha caído do outro lado, só para dar a volta ao mundo e reaparecer do lado de cá no nascer do sol. Abri os olhos e, surpresa, descobri que o mundo dos sonhos estava onde eu estava, dentro de mim.     

segunda-feira, 27 de maio de 2013

UM DEDO DE PROSA

Tem dedo de pé.
E dedo de mão.
Mas também tem dedo-de-moça.
E dedo-duro.
Menino, não meta o dedo onde não foi chamado!
Meta fora.

terça-feira, 23 de abril de 2013

A Casa Amarela

Uma casa amarela para uma menina de nome Quimera.
Eis como a nossa história começa.
Por mais que tentassem, Quimera não era criança de viver confinada.  
Tinha ideias próprias. Impróprias, talvez, para um mundo que parecia gritar ser proibido sonhar.
Quimera nunca se deixava alcançar. Um passo de aproximação em sua direção, e ela, tac tac, dois, a fugir.
Não havia quem negasse, no entanto, que suas vontades eram genuínas e mal não faziam a ninguém.
Quem a conhecia a simplificava, dizendo: "ooohh, menina de personalidade".
Quimera, dentre tantos desejos, sonhava conhecer o mundo.
Tinha lido em alguns livros que em lugares não muito distantes pessoas viviam de forma bem diferente a da sua vida. Tinham outros costumes, outros valores. 
Quimera ainda não sabia quase nada sobre costumes e valores, mas de curiosidade pelo desconhecido entendia bem.
Quando pela casa a contar que as crianças no Japão faziam origamis, teatros de marionetes, tomavam sorvetes de chá e comiam peixes crus, os adultos faziam que não ouviam seu  entusiasmo. 
Mesmo assim, Quimera não parava de sonhar com a existência de um mundo maior do que o de sua casa e família.
Quimera queria ser livre como os pássaros, mas sabia que uma criança é sempre alguém que necessita de pais e família por perto, por mais que seu espírito aventureiro de ganhar o mundo falasse alto.
Com papel, lápis e tesoura em mãos, foi construir uma casa amarela para nela viver o que  anos mais tarde reviveria. Colou as paredes, chão e teto. Abriu uma porta para nela entrar e dela sair. E, por fim, rasgou uma janela, posicionada frente ao horizonte, para fazer das estrelas suas eternas cúmplices. 
Graças à casa amarela de Quimera, o deserto do Saara, a vaca sagrada da Índia, o cumprimento pelo nariz dos esquimós, as piramides do Egito, as vestes indígenas, as danças africanas, e tantas outras histórias surgiram. 
Ao invés de catada pela vida, Quimera tornou-se uma catadora de vidas e fez da sua morada uma casa cheia.

   

  

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Dias de Luas Cheias

As estrelas têm olhos voltados para frente, por isso não sabem que vivem na companhia de muitas delas. Acreditam serem seres solitários. 
Em dias de lua cheia, há um lugar onde as estrelas se vêem todas refletidas na superfície de um grandioso lago. 
Nessa hora percebem que são muitas e, mesmo sem entender o porquê, brilham mais intenso do que em todas as outras noites. A luz faz noite virar dia, ilumina mais do que a soma de raios de cada uma doada àquele extraordinário espetáculo.
O brilho intenso dessas estrelas que se encontraram no olho do espelho do lago e que agora se sabem irmãs, dá braços ao das duas luas, a que vaga no céu e a que boia n'água. Cantam todos o silêncio do mundo, que não lhes é indiferente. 
Em outros lugares, estrelas-do-mar acordam e vão se juntar às estrelas-do-espelho, às estrelas-do-céu e às estrelas-apagadas. Fazem lembrar que onde quer que você viva ou para onde quer que você olhe, não está sozinho nunca.
Quando findas essas noites enluaradas, se as estrelas já não guardam a certeza de que são muitas, ao menos, lembram-se com desconfiança de que já foram e é por isso que, dia-após-dia, olham com olhos esperançosos para a única direção que podem, o lago, e alí esperam reviver os milagres dos dias de luas cheias.